Tanta saudade


Happiness - Clare Elsaesser

A saudade não a apertava mais. De tão grande que era, a saudade daquela moça já escapava para apertar seu arredor. As pessoas não se sentiam mais tão bem ao lado dela, pois a saudade que ela transmitia causava a sensação de aperto nos outros. E por onde ela passava, a saudade ia envolvendo as pessoas, os lugares, os ares... Até o dia que sua saudade ficou tão grande que apertou o mundo. E nesse aperto mundial, ela sentiu que havia tocado nele. Ele, razão daquela saudade, que estava a uma distância tão grande. Distantes por um tempo tão longo. E, então, pela primeira vez, meio a tanto tempo e tanta distância, a moça agradeceu por ter aquela saudade. Saudades dele. Saudades que a mantinha perto dele.

O vazio no olhar


Lady Beatrice - George Clausen

Ela tinha o vazio nos olhos. Ninguém conseguia olhar para ela sem perder, nem que seja por um instante, o ar. Algumas pessoas simplesmente não conseguiam trocar palavras com ela. Outros gaguejavam. E a técnica mais usada por aqueles que com ela mais interagia era: evitar encarar o olhar daquela moça. Mas a moça não notava esse poder que possuía, de causar tamanha surpresa nas pessoas. De tirar o ar dos outros. Ela não sabia que carregava o vazio no olhar. Pois nunca teve a chance de encarar seus próprios olhos. Nascera cega. Com olhos num cinza opaco. E vivia com a impressão de que os seres humanos são, por natureza, silenciosos. Porém, o que ela nunca saberia era que, por natureza, o vazio é algo difícil de encarar. 

História real



The pages of time - Shiori Matsumoto

A pequena princesa passava dentro de um carro blindado e discreto, para não chamar atenção. Observava as tantas pessoas que por ali circulavam, tiravam fotos, exaltando aqueles monumentos. Sabia que aqueles prédios ornamentados e aquelas artes monumentais, espalhados pela cidade e tão famosos no mundo inteiro, foram erguidos e projetados em homenagem aos seus antepassados da realeza a que pertencia. Eram presentes e honrarias conseguidos graças às riquezas dos antepassados da maioria daqueles tantos turistas. Sabia que houve muita exploração para que a sua cidade fosse tão brilhante e encantadora como hoje o mundo a considerava. E, apesar disso, lá estavam todos aqueles turistas apreciando, aplaudindo e rindo diante desses monumentos da sua família real. Esse fato ela sempre observava, mas nunca conseguia compreender. Ela não encontrava lógica na história. História essa a que ela, sem querer, pertencia.

Solução racional


Long day - Ed Hofer

Ouviu os pais dizendo que teriam que tirar o Bob de casa. Arquitetavam a ideia de levá-lo para um lugar bem distante, soltar a coleira e deixá-lo para trás. Pelo o que ele entendeu, já não havia espaço para cachorro grande naquela casa. O menino-adolescente retornou pensativo para o quarto, onde encontrou seu querido Bob. Enquanto o cachorro saltitava alegre aos seus pés, ele pensou no quão triste era aquela ideia. Bob era um simples cão, que desde filhote vivia ali na sua casa. Pensou no potencial racional que Bob tinha, então: como ele iria se virar para sobreviver? Para se abrigar das chuvas? Para se alimentar? Onde teria água limpa para beber? Não achava aquilo justo, jogar na rua um ser que nem pensar direito sabia. Logo, encontrou uma solução.
No outro dia, a mãe foi acordar o filho e encontrou a cama vazia e um bilhete com a seguinte mensagem: "Já que a casa não tem mais espaço para um cachorro grande, imagina para um homem que cresce muito mais que um cachorro. Cuidem do Bob. Eu saberei me cuidar". Bob, aos pés da dona, não saltitava alegre.

Tempos saudáveis


Cakes - Wayne Thiebaud

Na capa da revista a manchete principal anunciava uma vida saudável através de um novo modo de nutrição, sem açúcares. A senhora baixou a revista e olhou a bandeja de doces artesanais postos à venda. Uma receita passada de geração em geração. A fama que seu sobrenome carregou desde a muitas décadas. Mas agora jaziam todos os doces sem nenhum cliente para apreciá-los. Jazia a fama de doceiras com seu sobrenome. Tudo por conta de uma tal vida saudável... Como se ela, todos da sua família e de épocas passadas não tivessem tido uma vida saudável. E ali ficava, todos os dias, na espera de uma venda sequer. Entristecida, por ela viver naqueles novos tempos. Tempos "saudáveis". Tempos amargos.

Sem mãos dadas


Preludio para una nueva era - Denis Nuñez Rodriguez

Ela dispensou a mão que a mãe, carinhosamente, ofereceu. Atravessaram, sem mãos dadas, a rua. Aquele ato fez a mãe desabar dentro de si. Nos últimos dias, a menina, que nem doze anos tinha ainda, já se negava a dormir com a mãe, a pedir ajuda no banho, a convidá-la para passear e agora nem andar de mãos dadas queria mais. Não demoraria muito para que a filha largasse os brinquedos, escolhesse as próprias roupas e saísse sem dar motivos... Já que nem ajuda precisava para atravessar uma rua. Esse pensamento fez a visão da mãe, sem querer, embaçar, cheia de lágrimas. Ela não sabia prever qual seria a próxima oportunidade que teria para andar de mãos dadas com sua pequenina garota. Talvez na sua velhice, quando fosse ela quem não pudesse caminhar sozinha. E, além disso, quando a filha voltasse a se importar com aquele simples ato de dar as mãos.

Jantar à luz de vela?


A dinner table at night - John Singer Sargent

Naquela noite, ela estava sozinha entre casais. As conversas eram intermediadas por um beijo de um casal aqui, um abraço cheio de desejo do outro casal ali. Depois de alguns copos de vinho, um deles a questionou se ela não se incomodava de estar ali, "servindo de vela" para eles. Ela muito calmamente respondeu que não. Que quem devia se incomodar eram eles, pois aquela "vela" - que ela estava sendo - permanecia apagada, sem tornar o ambiente caloroso nem romântico. Sem entender, eles pediram explicação. Ela, risonha e saudosa, explicou que o "fogo" que a acendia não estava ali, mas sim em outro lugar. E sem seu fogo - seu amado - ela era vela apagada. Quem estava pior afinal: os casais sem uma vela a queimar ou a vela que esperava pacientemente o dia de queimar plenamente? Envergonhados e descontraídos, continuaram a beber seus vinhos.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.