O imprevisto


Drag - Zack Zdrale

Nunca soube como lidar com a imprevisibilidade da vida. Quanto mais admitia isso para si mesmo, mais surgiam situações fortuitas no seu dia-a-dia. Frustrava-se cotidianamente. Vivia em um inconformismo quase absoluto. Sentia que não tinha capacidade de planejamento. O que ganhava era sempre uma profunda descrença em si mesmo ou uma raiva impertinente das pessoas ao seu redor. Como podia ser a vida assim tão inesperada? E então, em um desses acontecimentos imprevistos da vida, toda a raiva, o inconformismo e a frustação se acabaram. Uma causa completamente imprevista o atingiu. Morreu de forma tão fugaz que nem teve tempo de refletir sobre a impermanência daquela sua vida. Cessou-se, para ele, o imprevisto.

Infeliz paixão


Hombre - Alberto Pancorbo

Tão apaixonado que ele era por aquela mulher! Tão encantado pelas ações dela, pelo comportamento dela, pela beleza dela... Enlouquecido de paixão, mas sem chances de se expressar plenamente. Seu mal era viver em uma sociedade onde homens não podem se apaixonar perdidamente pelas mulheres. Os homens não devem se expor tão submissos à paixão por uma mulher. Pois os homens são seres superiores e o amor é armadilha para os fracos. Declarar-se louco de amor por uma mulher era declarar sua própria fraqueza. Eis o martírio daquele homem tão apaixonado. Eis a infelicidade das mulheres daquela sociedade.

A espera


Girl in white dress - Hollis Dunlap

A espera pelo marido começava ao entardecer, depois que todos os afazeres de casa já haviam acabado. Ela sempre lembrava o início do casamento: a pontualidade do marido em casa, disposto a jantar ao seu lado. Em seguida, sentia na alma as lembranças mais recentes de um marido que se atrasava, sem justificativas e sem paciência para nenhuma conversa.  Aquelas esperas já faziam parte de sua rotina. Até o velho sofá já tinha o formato do seu corpo. Suas noites passavam num sofrimento calado. Assim como os bons sentimentos que daquele casamento se afastavam.

Existência esquecida

Regret - Katie O'Hagan

Vivia no vale do esquecimento. Colecionava recortes de memórias. As poucas lembranças que visualizava eram incompletas. Faltava o sentimento do momento. O passado se confundia com um desejo futuro. O presente mergulhava no peito e se incorporava quase imediatamente aos retalhos do passado. Tinha certeza do passo que estava dando, mas logo sentia medo pelos passos não dados. Vivia arrodeada de gente, mas plenamente sozinha. E não sabia se explicar. Não sabia o porquê daquele seu estado psicológico. Na realidade, nem se questionava sobre isso. Sua vida era um esquecer a cada instante. E quem disse que ela era infeliz?

Seu perfil


Blue Lovers - Marc Chagall

Era seu perfil preferido. O nariz não era simétrico. E ela não gostava de simetrias. Os olhos eram fundos, como se o crânio afundasse com o peso brilhante daquelas duas amendoadas pedras preciosas. Os lábios, duas pétalas naturalmente róseas que repousavam por cima de uma dentadura firme a sorrir. De longe ou de perto, era definitivamente o seu perfil preferido. Era um observar radiante. Um despertar de desejos. Um se aproximar em contentamento. Era seu, e sabia.

Última lição - o vazio da morte


Death and Life - Gustav Klimt


Aos dez anos, suportou a morte de seu pequeno peixe. O pai optou por preencher o vazio dele com um cachorrinho - que viveria mais. Aos vinte anos, a morte levou esse cachorrinho. A dor foi maior e o pai lastimou não ter previsto tamanho sofrimento. O jovem desistiu de criar animais; resolveu preencher o vazio com os humanos. A dor persistiu: ora a morte resolve levar seus avós queridos, ora os amigos próximos desapareciam como se tivessem morrido. O homem resolve, então, constituir uma família - esposa, filho e filha. A esperança do resto da vida ao lado desses preencheu seu novo vazio. Mas eis que recebe a notícia do aproximar da morte do pai e percebe que logo teria que suportar um vazio lancinante. Chorando no leito do seu velho, ouviu sair da boca deste essas palavras:
“Meu filho, me perdoe. Há muitos anos atrás, eu perdi a oportunidade de lhe ensinar a viver de verdade. Quando você tinha dez anos, com o seu pequenino peixe morto nas mãos, eu deveria ter lhe ensinado que a morte é insuperável e que ela faz parte da vida. Aceitá-la é viver. Mas ao invés disso, ensinei-o a preencher o vazio e agora você é um homem triste, cheio de lembranças vazias, sofrimentos calados, dores profundas… Isso foi o maior mal que cometi em vida, então peço que me perdoe e aprenda essa última lição. Aprenda, por favor, pois só assim posso morrer mais vívido e deixar você viver sem vazios”.
Essas palavras foram como raio de luz na escuridão da alma daquele homem que chorava. E o olhar iluminado do filho foi suficiente para o pai compreender que conseguiu seu perdão. A morte veio tantas outras vezes. O vazio, não.

Som do café


Xícaras - Valéria Vidigal

Ele gostava de ouvir o barulho da cafeteira em plena seis da manhã. Sentava ao lado da máquina e silenciosamente esperava pelos roncos da água quente trespassando o pó de café. Ela, como boa filha que era, nunca ousava interromper aquele momento de contemplação dele. O bom dia sempre vinha depois do primeiro gole de café do pai. E aquela cena se repetia como oração em casa de religiosos. A religião do seu pai era o barulho do café quente.
Hoje, não o tinha mais. Ele partira dessa para melhor… Ou para pior, vai saber! Mas todos os dias, em plena seis da manhã, ela sabia que o café estaria sendo feito em algum outro plano da existência. Lá estaria, seu pai - cafeteiro de deuses e demônios.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.