Existência esquecida

Regret - Katie O'Hagan

Vivia no vale do esquecimento. Colecionava recortes de memórias. As poucas lembranças que visualizava eram incompletas. Faltava o sentimento do momento. O passado se confundia com um desejo futuro. O presente mergulhava no peito e se incorporava quase imediatamente aos retalhos do passado. Tinha certeza do passo que estava dando, mas logo sentia medo pelos passos não dados. Vivia arrodeada de gente, mas plenamente sozinha. E não sabia se explicar. Não sabia o porquê daquele seu estado psicológico. Na realidade, nem se questionava sobre isso. Sua vida era um esquecer a cada instante. E quem disse que ela era infeliz?

Seu perfil


Blue Lovers - Marc Chagall

Era seu perfil preferido. O nariz não era simétrico. E ela não gostava de simetrias. Os olhos eram fundos, como se o crânio afundasse com o peso brilhante daquelas duas amendoadas pedras preciosas. Os lábios, duas pétalas naturalmente róseas que repousavam por cima de uma dentadura firme a sorrir. De longe ou de perto, era definitivamente o seu perfil preferido. Era um observar radiante. Um despertar de desejos. Um se aproximar em contentamento. Era seu, e sabia.

Última lição - o vazio da morte


Death and Life - Gustav Klimt


Aos dez anos, suportou a morte de seu pequeno peixe. O pai optou por preencher o vazio dele com um cachorrinho - que viveria mais. Aos vinte anos, a morte levou esse cachorrinho. A dor foi maior e o pai lastimou não ter previsto tamanho sofrimento. O jovem desistiu de criar animais; resolveu preencher o vazio com os humanos. A dor persistiu: ora a morte resolve levar seus avós queridos, ora os amigos próximos desapareciam como se tivessem morrido. O homem resolve, então, constituir uma família - esposa, filho e filha. A esperança do resto da vida ao lado desses preencheu seu novo vazio. Mas eis que recebe a notícia do aproximar da morte do pai e percebe que logo teria que suportar um vazio lancinante. Chorando no leito do seu velho, ouviu sair da boca deste essas palavras:
“Meu filho, me perdoe. Há muitos anos atrás, eu perdi a oportunidade de lhe ensinar a viver de verdade. Quando você tinha dez anos, com o seu pequenino peixe morto nas mãos, eu deveria ter lhe ensinado que a morte é insuperável e que ela faz parte da vida. Aceitá-la é viver. Mas ao invés disso, ensinei-o a preencher o vazio e agora você é um homem triste, cheio de lembranças vazias, sofrimentos calados, dores profundas… Isso foi o maior mal que cometi em vida, então peço que me perdoe e aprenda essa última lição. Aprenda, por favor, pois só assim posso morrer mais vívido e deixar você viver sem vazios”.
Essas palavras foram como raio de luz na escuridão da alma daquele homem que chorava. E o olhar iluminado do filho foi suficiente para o pai compreender que conseguiu seu perdão. A morte veio tantas outras vezes. O vazio, não.

Som do café


Xícaras - Valéria Vidigal

Ele gostava de ouvir o barulho da cafeteira em plena seis da manhã. Sentava ao lado da máquina e silenciosamente esperava pelos roncos da água quente trespassando o pó de café. Ela, como boa filha que era, nunca ousava interromper aquele momento de contemplação dele. O bom dia sempre vinha depois do primeiro gole de café do pai. E aquela cena se repetia como oração em casa de religiosos. A religião do seu pai era o barulho do café quente.
Hoje, não o tinha mais. Ele partira dessa para melhor… Ou para pior, vai saber! Mas todos os dias, em plena seis da manhã, ela sabia que o café estaria sendo feito em algum outro plano da existência. Lá estaria, seu pai - cafeteiro de deuses e demônios.

Contemplação


Starry Night - Vincent van Gogh

É sempre um sacrifício acordar cinco horas da manhã. A cama está quentinha, os três travesseiros me confortam e o lençol me envolve como se fosse a própria placenta materna de outrora. Mas levanto, tentando ignorar o peso da sonolência nas pálpebras, e me visto rapidamente. Saio na gélida madrugada da rua. Corro. Depois que o sangue quente desperta o corpo inteiro, paro e observo o meu redor. Então, sempre – digo, sempre! – suspiro de satisfação: contemplar a natureza despertando e chamando a cidade para acompanhá-la é recompensador. Uma cidade inteira a se levantar. Os raios de sol a se anunciar. Os mínimos barulhos de vidas que, na algazarra do cotidiano urbano, não se fazem notar... Há vidas! Confirmo que o sacrifício de alguns minutos atrás é pequeno demais perto da contemplação da vida. Ah... E volto logo a correr. Viver.

Por demais e mais



Chocolate Birthday Cake - Carol Engles

Completara metade de um século de vida. Pôs em revisão todo aquele tempo e tirou suas conclusões. Estudava demais, mas não tinha certeza sobre o que tanto sabia. Lia demais, mas não contara quantos livros foram concluídos. Escrevia demais, mas, sem nenhum livro publicado, apenas rascunhos abandonados. Amava demais, tanto que até o momento ainda não se satisfez com somente um companheiro. Viajava demais, mas não fazia listas de lugares conhecidos, pois tratava logo de desconhecê-los para ter que retornar algum dia. Concluía, finalmente, que não se sentia satisfeita com seus cinquentas anos. Queria viver mais. Tinha sonhos demais para realizar. A cada dia a mais que vivia, nasciam mais vontades a saciar. Seria pedir demais por mais cinquenta anos de vida? Não hesitou: curvou-se sobre o bolo, apagou as tantas velinhas e fez esse pedido.

Traumas


Male Nude Model - Henri Matisse

Ele passou a ter sérios problemas para ficar sozinho na sua própria casa depois daquele dia. Aquele traumático dia. Não, ele não podia revisar aquele dia mentalmente, pois seria capaz de invocar o caos universal dentro de si mesmo. A questão é que – para uma pessoa que adorava ficar sozinha – aquele seu complexo de repulsa à solidão estava o tirando do estado espiritual normal. Queria superar seu trauma. Voltar a sentir prazer na solidão... E conseguiu isso à medida que ia tentando fugir desta, buscando companhia de outros e descobrindo, com isso, a amargura das amizades superficiais, a falsidade dos parentes cansativos, a obsessão dos muitos templos religiosos, o vazio das ruas e festas urbanas. Esses dias, em que não esteve sozinho, o encheram de traumas. Eram verdades nuas e cruas. E, então, recordou do aconchego de sua própria casa. Dos dias em que fora feliz consigo mesmo, na companhia de um livro, um café, uma cama ou um filme. Redobrou suas forças e encarou as paredes vazias da sua residência. Voltou a frequentar a sua própria solidão. Fugindo dos traumas da sociedade, curou seu próprio trauma.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.