Fundo do poço


Richard Serra


Os diamantes não tinham valor no fundo daquele poço. No fundo, era tudo escuro. Tudo silenciado pela mesmíssima cor de breu. Cá, na humanidade, aquilo era também verdade. Não importava a superfície dos colos femininos ornamentados por pedrinhas brilhosas... No fundo daqueles peitos, tudo era a mesma cor de breu... Que pulsa, pulsa e pulsa. Sangue escarlate como água que pulsa no fundo dos poços do mundo. Que pinga, pinga e pinga feito diamante que deixava cair naquela beira.

Desenterro



A carta - Eliseu Visconti

Debaixo de sua cama, ela guardava um túmulo. Dormia por cima da angústia daquele enterro, até que resolveu desenterrar aquele segredo. Numa manhã como outra qualquer, tirou debaixo da cama a velha caixa de sapato que servia para guardar as tantas cartas de amor, de amizade, de saudades, de ciúmes, de intrigas, de reconciliações... Todas de um tempo que as cartas significavam sua vida. Tirou e jogou no lixo. Enterrava as lembranças bem longe dali. O vazio que deixou debaixo da cama foi preenchido com o alívio de um passado já passado e a esperança de um futuro por vir.

Formado


Alter ego - Rene Magritte

A festa acabara. Subiu as escadas e foi para seu quarto. Foi parado no meio do corredor pela imagem refletida pelo espelho que havia logo ali, no final. Não era ele. Angustiado, percebera o que se tornara: ele não era o que queria, mas o que outros quiseram. Não era ele. O reflexo era a realização de desejos alheios, de pai, de mãe, da família, da sociedade. Diante dessa realidade, ele sentiu uma lágrima descer pelo rosto. Na imagem do espelho, não viu lágrima alguma. Homem não chorava, afinal... E algumas coisas apenas se sentem. O fato era que a sua festa de formatura acabara. Formou-se – formado naquilo que nunca quis.

Fulminante



Separation - Edvard Munch

Apego é uma coisa que aperta o coração. Amor é uma coisa que o liberta. As sístoles e diástoles do coração daquele homem eram intensas. Ele próprio, consciente do seu problema crônico, receitava sua mente a equilibrar o apego e o amor que sentia por aquela mulher. Porém, um dia fatalmente deixou-se aplacar pela desconfiança e pelo ciúme... O coração apertou forte e, como um último suspiro, afrouxou por completo. Foi de ataque fulminante que o homem deixou viúva a mulher adorada.

Feriadão


Mind Changer - Leah Saulnier


Era feriado e lá estava ele, ao vivo, apresentando o principal Jornal da cidade. Indignava-se por estar ali. Não que não gostasse do seu trabalho. Na verdade, sempre sonhara ser jornalista. A indignação era devido às notícias que anunciaria: pessoa morre na fila de hospital público, porque o médico plantonista aderiu ao feriado nacional; governador é fotografado em praia paradisíaca, descansando no "feriadão"; escolas "enforcam" a semana inteira para aproveitar o feriado; comércio paralisa o dia inteiro; indústria diminui a carga horária de trabalho em decorrência da data especial... Já o jornalista não podia tirar folga, porque a televisão (essa sim!) era levada a sério e sem TV a população não podia ficar no feriadão.

Meu lusíada



Kiss - Henri De Toulouse-Lautrec

Ainda que meu organismo esteja, nesse instante, em plena batalha contra uma gripe, eu não me importaria de morrer sufocada com um beijo teu, tanto é esse o meu desejo. Tu és mais forte que esse vírus bárbaro. Não me importo se não possuo poder bélico – e imunológico – para te extirpar do cárcere voluntário em que te encontras cá dentro em Minh ‘alma.  Eu gosto desse teu espírito de invasor, como um genuíno líder do MST que desterra meu coração como se fosses tua propriedade por direito. Isso! Podes fincar tuas bandeiras revolucionárias nesse meu corpo e partir para a exploração. É desse meu desejo incongruente que quero ser explorada. Serei indígena, africana ou italiana... Tu escolhes e tu tomas conta. Apenas seja um bom explorador, um português daqueles de Camões, um herói. O meu herói!


para Cândido Sales Gomes.

Violenta obra-prima


Painting Woman 2 - Robert James Henry

Batia, sim. Mas com justificativa. Para o marido, a maior das belezas era os olhos assustados de sua esposa a chorar. O desespero preso dentro da íris daquela mulher o encantava. Por isso, as violências diárias – por amor à arte. Mas, por amor a si mesma, a esposa lutou contra o choro. Petrificou seu olhar, impedindo o mínimo brilho de lágrima de aparecer. O marido, desesperado, sem sua dose diária de fascinação, aumentou as pancadas. Mas em nada surtia efeito. Amargurado, parou de bater. Usando todo seu vandalismo, ela destruía os encantos do marido e permanecia marmórea. À medida que a bela arte plástica do homem falecia dentro da alma da mulher, esta ressuscitava.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.