Palhaçada



Três palhaços - Georges Rouault

O menino amava os circos e, principalmente, os palhaços. Gargalhadas eram fartas sempre que entrava em contato com as palhaçadas. Porém, de tanto ir ao circo, um dia o circo retribuiu uma visita à casa do menino. De madrugada, três palhaços invadiram sua casa, amarraram sua mãe, bateram no seu pai e levaram todos os objetos de valor que lá havia. Antes de irem embora, no entanto, os palhaços intrigaram-se com a seriedade do menino que permanecia olhando-os fixamente. Sentiram-se ameaçados pelo olhar da criança e, por isso, decidiram matá-la. O espírito do menino morto foi buscar nos céus os circos sagrados para gargalhar.

Gorda vida



Sitting woman II

Desde menina, o que ela mais amava fazer era comer. Por isso, suas fotos de criança eram registros de toda a sua fofura. Foi uma criança quase obesa, uma jovem gorda e guiou-se no caminho de uma adulta gordinha – sempre comendo para se sentir feliz. No entanto, quando se tornou uma grande empresária, todos os seus assessores impuseram que a magreza era necessária para cultivar a boa imagem da empresa. Regimes árduos, carboidratos limitados, açúcares determinados... Boa parte do seu gordo salário foi gasto com nutricionistas, ao invés de compras das melhores iguarias.
O regime a mergulhou numa profunda depressão. De mulher gorda e bem-sucedida foi ser mulher magra e mal sucedida. Perdeu o ânimo dos negócios e encaminhou a empresa à falência. Porém, não se deixou abater: hoje é uma simples e gorda secretária, ganhando o necessário para fartar-se com aquilo que a deixava mais feliz: comidas, comidas e comidas.

Abstrata


Zhannet - Serhiy Reznichenko


Era cheia de glamour e prazeres. Cheia de presentes... Tantos presentes que até se sentia uma deusa a receber diariamente oferendas de crentes religiosamente cegos pelo seu charme. Era exatamente o seu charme e todos os seus rebolados que os dominava. Porém, não importava a tamanha transcendência que ela era capaz de provocar nos seus galanteadores, nenhum deles ousava abstraí-la da simples crença para o real – ninguém a queria como companheira legítima, como mulher para toda a vida. Apenas a queriam como deusa nos momentos de pecados, queriam-na apenas para a sensação de absolvição, de ritual. Era por isso que sempre séria ela permanecia. Como uma imagem de santa imaculada, séria e de olhar fixo ficava. De santa, nada tinha. De deusa, também não. Tinha era muita solidão de mulher abstrata a observar homens fugindo das suas mulheres concretas.

Canto da sereia



Green Water - Kellie Marian Hill

Ela ouvia, em todos os crepúsculos, aquela voz suave como algodão a cantarolar. Percorria todo o bosque, se sentindo guiada pela doce melodia, invadia os pântanos e acabava sempre frente ao grande lago, procurando quem seria a fantástica cantora. Porém, a música cessava e sem nada se manifestar, voltava para sua choupana.
De dentro do lago, a sereia ficava confusa e atônita, sem entender como que seu canto fantástico atraia sempre aquela moça, ao invés de atrair os homens. A sereia assim permaneceria em dúvida, pois o que ela não sabia era que na mente e no coração daquela moça existia uma personalidade e fortes sentimentos de um homem.
Os transtornos sexuais ainda não haviam chegado ao mundo das sereias.

Amadora



Girl - Nina Reznichenko

Ela amava imensamente. Acordava sorrindo, porque o amor escapava pela sua garganta e esticava os músculos do seu rosto em uma bela risada. Andava como se penetrasse na terra um pouco do amor, que pelos poros dos seus pés, escapava. Deixava o vento assanhar seus cabelos para sentir um pouco do amor acumulado nos fios pretos se desprender e voar. O amor que ela possuía, de fato, não cabia mais dentro dela. Os espaços entre as vísceras já estavam ocupados; o sangue circulava com a dificuldade de quem tem um coração amante.
Mas não morria. Nem com todos os seus órgãos emperrados pelo amor, com seus neurônios embebedados pelo amor e seus brônquios afogados pelo amor... Não morria, exclusivamente por isso: por viver pelo amor. Todo o seu corpo era para, pelo e devido ao amor.


(autobiográfico e em homenagem a Cândido Sales Gomes)

Construção de homens


Telephone Building Lower New York - John Marin


De longe, o garoto observava: na rua, novas construções estavam sendo feitas. Havia homens suados debaixo do sol infernal, freneticamente martelando madeiras, quebrando asfaltos, cavando o solo, enterrando canos, serrando metais... O semblante de cada um daqueles homens era de puro terror. Terror da fadiga, do trabalho incessante, do salário tão pouco. Sim, o garoto sabia que o salário deles era pouco, porque, de longe, ele também observava seu padrasto: o cara de roupa social, debaixo de um enorme guarda-sol, de óculos escuros, ventilador apontado para o rosto e berrando ordens por um megafone. Este, com todas as mordomias, era  o chefe da construção e quem mais ganhava ali.
É, seu padrasto bem dizia: “agradeça e aproveite suas boas condições para construir seu futuro bem remunerado, ou se não você vai servir para construir o futuro dos outros bem remunerados”.

Rotinas quebradas



Room in New York - Edward Hopper

Tanto tempo juntos esgotou o enlace do romance entre eles, aquele gostinho bom da surpresa ao longo do processo de conhecimento mútuo. Agora, conhecendo-se tão bem, já não havia mais nada que os excitassem como antes. Então, um filho parecia bastante conveniente para quebrar o cotidiano. E, como num passe de mágica, tiveram um filho. As experiências de pai e mãe nutriram mais os desafios de casados... Porém, o que eles não haviam pensado antes era o fato de um filho ser para sempre, não como um objeto para sair da rotina, mas como um ser que os forçaria a criar uma rotina fixa.
Com o tempo, perceberam que não nasceram para serem pais. Infelizes, a única solução foi o divórcio. Com cotidianos diferentes, deram ao mundo mais uma criança com pais separados.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.