Prazer exigido


Groupe de quatre nus - Tamara De Lempicka


Uma perna por cima da outra. A mão de uma encontrava seu seio esquerdo. Ao sentir o toque de outro na sua anca, fazia uma cara de prazer. A boca tinha que estar constantemente entreaberta, ou variar com uma mordida no lábio inferior. Suas mãos também não podiam ficar paradas - apalpar o máximo de pele e músculos alheios era suas funções. E lambidas, e abraços, e suspiros, e gritinhos... Tudo era mosaicamente planejado para o melhor enquadramento fotográfico.
Sim, a profissão exigia muito de todos. E todos só se exigiam a tanto por conta do bom salário. Prazer mesmo só sentia quem comprasse aquelas revistas com aquelas fotos pornográficas estampadas. Ser artificial e profissional não rendia nenhum prazer.

Pobre palavra



Amish Letter Writer - Horace Pippin


Faltava um verso para o soneto. Sentia na pele a ânsia de ver pronta a obra de arte. Cada sílaba fora bem pensada. Cada suspiro, que o leitor haverá de dar, também fora planejado. Milimetricamente suas palavras estavam nuas naquela folha, prontas para serem revestidas.
Mas faltava um verso. E sua mente parou. O leitor alvo sumiu dos seus planos. Nenhuma palavra parecia milimétrica para aquela posição do texto. Sentiu uma desolação tamanha. Inutilidade. Então, uma palavra reinou naquela sua falta de criatividade... Apenas uma poderosa palavra veio empobrecer seus versos ricos. Sim, só poderia ser aquela palavra para sobreviver na escassez de vida, pois só ela era pobre e capaz de viver solitária. E, contra sua vontade, a mão perdeu a meticulosidade de escrever bonito e fez um garrancho impreciso para acabar com sua arte: ‘fim’.

Águas divididas



sem título - Edouard Manet

Ser empregado tinha suas particularidades. Uma delas parecia gritante frente às outras: a separação das águas entre os donos ricos da casa e os empregados pobres. Havia uma garrafa na geladeira com água mineral para os primeiros, enquanto para os últimos, uma garrafa com água direto da torneira. O trabalho duro de limpeza era todo refrescado nos goles da água da torneira, enquanto o rico ócio era compensado com goles de água comprada, industrializada.
Um dia, porém, um empregado quebrou as regras e bebeu a água mineral. Amanheceu no outro dia gravemente doente. O diagnóstico do médico – que a dona da casa teve a piedade de pagar – apontava ser uma infecção por bactéria transmitida por meio da água. Pelo visto o organismo do empregado não era forte ou acostumado com o outro tipo do líquido.
Muito doente e beirando a morte, a última frase que ouviu antes de falecer foi: “pobre é assim, quando tenta ser rico, se estrepa”.

Perda de tempo


Dizziness - Iman Maleki


Todas aquelas ideias pensadas e batalhadas que tinha que ler o sufocavam. Teve que encostar seus romances numa prateleira e de longe observava a poeira assentar por lá, enquanto por ali tinha as teorias obrigatórias. Lia dois ou três parágrafos e levantava da cadeira para passar os dedos pelos livros encostados. Sonhava com o tempo em que teria tempo para lê-los. Sentia o peito amargurado pelas obrigações. Então, voltava para todas aquelas leituras enfadadas.
Até que chegou um dia que, triste e desesperado, sequestrou os livros da prateleira e foi perder seu tempo nas entrelinhas ficcionais. Sorrisos, afagos, memórias, lágrimas, suspiros, tremores... Perdeu seu tempo com todos os sentimentos vívidos que aquelas prazerosas páginas traziam. Esqueceu-se dos parágrafos teóricos e forçados. Perdeu todo o seu tempo, feliz.

Bailarina espelhada



Waiting - Edgar Degas

Procuravam moças que amassem o Balé, que quisessem viver por essa arte. A moça ganharia uma bolsa para estudar na melhor escola de dança do país. Aquele era o sonho da senhora de preto; sempre quis ser bailarina, brilhar debaixo de holofotes, rodopiando com passos precisos, leves e clássicos. Ah, mas o tempo corroeu seus dias e seus pais corroeram as oportunidades que o tempo dava a ela, por isso não podia competir por aquela bolsa. Mas... Sua filha podia! E se espelhou na moça para concorrer àquela oportunidade...
Sua filha saiu da sala de testes, sentou ao seu lado e falou: “Não fui aprovada; os júris disseram que eu não tenho o espírito da dança e que pareço fazer os movimentos forçada...”. Desamarrando a sapatilha de ponta, a filha completou: “Incrível como os júris são adivinhões, né mãe? Agora que já tentei o seu sonho, posso tentar os meus?”.

Insatisfeita solidão


Melancolia - Edvard Munch


Era um escândalo aquela solidão sua. Tentava não torna-la tão explícita, mas, como se tivesse vontade própria, a solidão saltava do seu corpo e ameaçava as pessoas que por perto dele passavam. Talvez por isso essas pessoas não se aproximavam. Era como uma aura negra circundando todo o seu ser. Desde pequeno era o isolado; quando jovem, ele era o esquisito; agora o denominavam depressivo. Mas a maior lástima daquele homem não era o que os outros viam nele, mas como ele mesmo se sentia. Achava a solidão péssima, pois aquele sentimento o fazia se sentir acompanhado. Desde muito cedo sempre quis ficar completamente sozinho, no entanto, a maldita solidão insistia em circundá-lo. Apesar de tudo, ele tinha fé que um dia conseguiria se livrar daquela aura negra e deliciar-se com seus anseios solitários.

Choro


Amor e dor - Edvard Munch

O choro era baixo, mas ainda assim soava como ventania cortante no seu espírito. A resistência de seu egoísmo era flácida diante dele. Poderia ter todos os defeitos, mas lá se punha ela a aquecer o corpo arrependido dele. Entregava-se ao prazer de vê-lo completamente entregue. Naqueles momentos, era ele quem sofria. Bem sabia desse sofrimento, porém, ela não tinha certeza de por qual motivo exato ele sofria: se por correr o risco de perdê-la ou se por ter que voltar atrás à sua rigidez masculina e pôr-se a chorar. Eram assim os pensamentos dela, enquanto abraçada com ele...
E eram assim os pensamentos dele, enquanto abraçado com ela: chorar, sim! Ele sabia que só suas lágrimas seriam capazes de exprimir tamanho sofrer. O arrepender-se pedia um esforço claro para ser justificado. Tinha que se esforçar para deixar as lágrimas despencarem e só assim ver ela se derreter diante de seus defeitos injustificados. O choro ocorria, pois ele tinha a certeza de que ela voltaria atrás e o acolheria de novo. E ele seria capaz de chorar quantas vezes fossem necessárias.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.