Escondidos


Lane in Cheshire 1883 - John Aktinson Grimshaw

Atravessou o bosque escuro em segurança, tentando não deixar vestígios. Alcançou o casebre com o peito arfante de excitação. Não sabia se era a adrenalina do percurso ou o prazer da chegada que o deixava daquele jeito. Bateu quatro vezes pausadamente na janela e esperou o barulho da tranca da porta soar. Adentrou no ambiente pequeno e quente, soltou todo o ar do pulmão e olhou para a anfitriã. Bela, olhos negros compassivos, finos lábios vívidos, longos cabelos cor de areia. Mas o que o levava ali não era aquelas características... O que eles faziam – escondido, proibido e à luz de velas – era o que o movia.
Ele tirou o livro de capa dura marrom de dentro do casaco e pôs em cima da mesa velha. “Hoje você vai aprender um pouco de poesia...”, disse ele com um sorriso largo no rosto, deixando a compaixão despertar no seu íntimo. Ela assentiu, sentindo a curiosidade se expandir. Uma madrugada de leitura e aprendizado esperavam aqueles generosos jovens: um garoto rico e uma garota pobre, o primeiro sendo professor e a última, uma dedicada aluna. Separados por um bosque e pelo acesso ao conhecimento... Ou melhor, pelas desigualdades da sociedade em que viviam.

Vida movimentada


Street Scene - George Grosz

A sua vida social era agitada. Estava sempre no centro de todos, tentando chamar atenção. Cumprimentava cordialmente quem na sua frente passasse. Por vezes havia quem lhe retribuísse o comportamento, por outras, o ignoravam. Natural, pensava ele. Para uma pessoa que tem uma vida movimentada, manhã, tarde e noite na rua, aquilo poderia ser natural, uma vez que ele teria que lidar com personalidades diversas.

Mas ele não gostava dessa vida aturdida. Afinal de contas, o que ele era? Um mendigo. Não voltava para casa, porque literalmente vivia na rua.  Cumprimentava todos que passavam com a esperança de sua súplica arrancar daqueles pedestres uma forma de mudar sua situação. Recebia atenção de alguns: umas moedas, um pedaço de pão que restou do lanche de alguém ou algumas bençãos de religiosos. Mas o natural, e ele naturalmente aceitava isso, era ser ignorado. E tinha alguma coisa que ele pudesse fazer? Não, pensava. Sentado naquela calçada larga, sujo e maltrapilho, estendia a mão àquela sociedade.

Giraldo e Maria Sol


Girassóis - Vincent Van Gogh

Apaixonaram-se nos poucos minutos que passaram na recepção da floricultura à espera da entrevista de emprego. Não precisaram de palavras naquele instante para saber que estavam amando um ao outro. Ambos foram contratados, porém, ele foi para o plantio das flores e ela ficou com os cuidados dessas até a venda. Trabalhavam distantes, ele na fazenda e ela na cidade; mas nem por isso se esqueceram do amor entre eles. Dessa vez, foi preciso usar as palavras como meio de união. A cada nova chegada de flores da fazenda para a cidade, lá estava um simples bilhete dele. A cada volta da cidade para a fazenda, lá estava um bilhete dela. Ele assinava com seu apelido de quando era menino: “Gira”; ela assinava com seu segundo nome de nascença: “Sol”. Giraldo e Maria Sol eram amantes entre as flores.

Blindagem social



Waiting for Paris I - Myles Sullivan

Saiu do departamento onde trabalhava escoltado pelos seguranças. Entrou no carro blindado e esperou que o motorista fosse rápido pelo tráfego. Alcançou as imediações da sua prisão residencial. O prédio rasgava o céu cinza das seis horas da tarde. Subiu em silêncio pelo elevador principal. Passou pelos empregados sem cumprimentar. Trancafiou-se no seu duplex, condenado a pagar a pena da sua insociabilidade. Observou, passivo, as pessoas livres lá fora. O que esperar de mais um julgamento? A mesma resposta. Sua alma era presa a si mesma e tudo que conquistava na vida era para si. Compartilhava, no entanto, toda sua riqueza material com aquele vazio seleto que deixava ultrapassar as fechaduras e trancas de segurança da sua vida. Não fazia parte da sociedade... E também não queria.

Abandonado


Master Bedroom - Andrew Wyeth


Era como gente. Ficou sozinho na casa dos seus donos não sabia por quanto tempo, mas sentia a mesma falta que sentia desde a saída deles. A saudade não aumentava, até porque o resto do seu corpo não entenderia aquele sentimento, sendo inútil ultrapassar os limites de sua cabeça. O coração do cachorro não servia para sentir, como os humanos acreditam que os seus faziam; batia, somente. Era na sua cabeça que guardava as recordações. Não dava para esquecer, afinal; todo canto da casa vazia tinha cheiros e vestígios dos seus donos.
O cachorro vivia só, desde que os donos morreram. Ninguém se preocupou em cuidar dele. Mas ele se sentia cuidado pela casa abandonada. Não sairia daquela casa tão cedo, pois ainda tinha muito que viver. Com saudades, mas viveria. Viveria como gente.

Carta de despedida



Dutes Motes Dancing in the Sunbeams - Vilhelm Hammershoi

                “Querido pai,
É provável que esteja com lágrimas aos olhos e que agora esteja vendo de modo embaçado o meu corpo sem vida na sua sala de estar. Escolhi morrer aqui, porque já não aguentava mais a casa do meu marido – aquele homem soberbo a quem o senhor deu minha mão em casamento. Desculpe-me, pai, mas não fui forte como minha mãe. Ela, sim, era guerreira e suportou uma vida inteira do lado de um homem que a traía. Você! E não pense que eu não sabia disso; eu sempre soube. Passei minha vida odiando suas traições. Passei minha vida esperando por um casamento íntegro, fiel. Mas veja como o destino é ousado: casei-me com um homem que também adultera a união sagrada. Fui mais uma mulher traída; sofri igual minha mãe; senti na pele os mesmos ferimentos da infidelidade.
Resolvi morrer, o quanto antes. Não era essa vida que pensei viver. Então, desculpe-me, pai, pois sei que sou a última pessoa que sobrou na sua vida e sei do imenso amor que sente por mim. Agora vejo que serei o motivo para fazer o senhor sentir na pele o peso de seu pecado. Viverás, meu pai, até o fim da sua vida lamentando seus erros. Deixo meu perdão em nome de minha mãe; espero em oração suas lágrimas e lamentos por sua conduta. Não se esqueça, estarei esperando...”

O homem, caído de joelhos, chorando pesarosamente, com o corpo da filha morta nos braços, entregou-se ao martírio dos infiéis.

A protetora


Mother and child on a couch - James Abbott McNeill Whistler


Correu para o quarto do menino o mais rápido que pôde. Trancou a porta e abraçou-o forte, pois sabia que ele corria perigo mais uma vez. A respiração acelerada não poupou sua pele de sentir as lágrimas quentes da criança. Sofria vendo-o daquele jeito. As pancadas na porta anunciavam que o pai do menino já chegara ali, depois de subir, trôpego, a escada da casa. A criança era vítima das irresponsabilidades do pai alcoólatra. Ela, tia e irmã do homem que berrava imundices do lado de fora do quarto, se sentia na obrigação de proteger aquele nobre pequeno ser. Sem mãe, o menino tímido apoiava-se nos carinhos da tia para ter esperanças de uma vida melhor, visto que seu pai desencantava qualquer sonho infantil seu.
Os minutos transcorreram frágeis; a mulher percebeu que conseguira, mais uma noite, afastar o menino da violência do pai. O homem, seu irmão, desistira. O menino, seu sobrinho, adormecera. Amanhã seria um novo dia... Ela rezava, agora, para que esse fosse melhor.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.